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(Testemunho de uma hóspede que passou a Semana Santa no Mosteiro)

 

Mandirituba-PR, 31 de março de 2013.

 

Domingo da Páscoa, Ressurreição do Senhor
Término da escrita: 1º de abril de 2013 | Segunda-feira na Oitava da Páscoa.

 

 "O mistério não é um muro onde a inteligência esbarra,

mas um oceano onde ela mergulha" (Gustave Thibon)

 

Grande Semana no Mosteiro do Encontro: rezando com os nossos Pais na Fé

e no Cristo verdadeiramente Ressuscitado

Um mergulho no Mistério Pascal. Assim podem ser definidos esses dias Santos que vivenciei ao lado das monjas, demais hóspedes e comunidade do Mosteiro do Encontro, em Mandirituba-PR, onde estive retirada durante a maior parte da Grande Semana ou Semana Santa.
Na Ceia: é onde tudo começa e continua, sem ter fim. As ervas amargas, as quatro taças de vinho, o harosset, os pães ázimos (sem fermento), o cordeiro... a Ceia Judaica, que tantas vezes Jesus participou com os seus, estava posta e foi partilhada. Assim foi a quarta-feira Santa, com a lembrança de nossos Pais na Fé, rememorando a Páscoa Judaica, rica do sentido da libertação de Israel e prenúncio da Nova e Verdadeira Páscoa: onde o próprio Cristo é o Cordeiro Imolado e sem mancha, que nos liberta dos laços da morte e nos salva de uma vez por todas.
Particularmente, sempre me chamaram a atenção os trechos do livro do Êxodo, nos quais a Páscoa Judaica é narrada. Houve uma época de minha vida que li bastante estas passagens da Sagrada Escritura para compreender melhor a Páscoa Cristã e o selo definitivo da Vitória de Jesus Cristo sobre a morte. Reler essas belas e profundas palavras foi um reencontro pessoal também.
 Eu já sabia que iria chegar e participar de uma Ceia Judaica, em meu primeiro dia na hospedaria do Mosteiro do Encontro. Mas, eu jamais imaginei que fosse desta forma: preparada com tanto carinho, simplicidade e amor pelas Monjas e pelo Padre Jomar. Que graça! Agradeço a Deus pela oportunidade de ter vivenciado algo tão rico, profundo e constitutivo de nossa Fé. Saborear e celebrar a Páscoa Judaica nos ajuda a adentrar no mistério da Páscoa Cristã. Assim, o solo do meu coração foi sendo preparado para a quinta-feira Santa.
(Antes de entrar na Santa quinta-feira, abro um pequeno parágrafo-parêntese para partilhar acerca do Ofício Divino: que alegria poder rezar com as monjas do Mosteiro do Encontro. Silêncio, contrição, louvor, alegria... cada sentimento salmodiado na medida certa. Obrigada irmãs!)
 Voltemos à quinta-feira Santa. A missa da Ceia do Senhor aconteceu à tardinha. Foi a primeira Eucaristia que vivi ao lado da comunidade do Mosteiro do Encontro. Mas antes, o lava-pés. Ter os pés lavados e beijados pela Madre Ana Maria e pela Irmã Maria Paula, que, no momento, representavam a comunidade monástica do Encontro, foi comovente. Foi momento de me sentir pequena e indigna, como Pedro, que questionou o Mestre. Mas, a um só tempo, momento de sentir-me profundamente amada. Foi a perfeita conexão entre o Evangelho (Jo 13,1-15) e a Regra de São Bento (LIII,13). No momento da Comunhão Eucarística, mais uma alegria: receber o Senhor Jesus sob duas espécies. O Corpo do Cristo, no acidente do pão, e o Sangue Dele, no acidente do vinho. Foi muito especial. Simples, mas muito profundo, como a Ceia derradeira de Jesus com seus apóstolos.
 A noite foi coroada pelo Hallel. "Hallel era o nome dado a um grupo de salmos com os quais se louvava a Deus em certas festas, especialmente na Páscoa e no ritual de refeição pascal. Jesus cantou-os certamente com seus discípulos na última ceia...". Entoamos os Salmos no Hallel, entremeados pela Leitura do Evangelho segundo São João (capítulos 15, 16 e 17). Nossa! Quanta bondade de Deus ao nos fazer provar do mistério das palavras que antecederam a agonia do Cristo, segundo o Evangelho narrado pelo discípulo Amado. Terminado o Hallel, entramos com o Cristo no Jardim das Oliveiras: meditamos e rezamos, por meio da Lectio Divina acerca da Agonia, segundo São Lucas (Lc 22,39-46). Jesus sob o peso dos meus pecados e dos de toda a humanidade de ontem, de hoje e de amanhã. Só de lembrar aquele momento, fico sem ar. Deus se derramando profundamente sobre nós. Não esquecerei a conexão espiritual que Deus permite a essa Comunidade Monástica: irmãs simples e humildes que rezam juntas e, por meio dessas orações, transpiram em intimidade mútua e com Deus.
"... que a agonia não seja só local para vencer a tentação, mas de confirmação e decisão..." (rezou uma das irmãs).
(...) Ao longo da madrugada, revezamo-nos no vigiar com o Cristo agonizante. E as palavras do Cristo a ressoar em nossas mentes e corações: "Pai, se queres, afasta de mim este cálice..."... "Contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua!"... "Levantem-se e rezem, para não caírem na tentação"...
Já nas primeiras horas da sexta-feira Santa, o tempo fechado, o céu cheio de nuvens e a temperatura baixa para os padrões paraenses (cerca de 10o-15o C) preparam o clima de silêncio e contrição para o que viveríamos: a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Deus Filho se imola como Cordeiro, entrega-se Todo para salvar toda a humanidade. Como nos diz nosso Papa Emérito: "Cristo morreu por todos, embora nem todos o saibam ou o aceitem" (Papa Emérito Bento XVI).
Nas Vigílias, antecipamos liturgicamente o sofrimento do Cristo, com as lições salmodiadas do Livro das Lamentações de Jeremias. As melodias entoadas pelas monjas favorecem com que sintonizemos nossos corações ao sofrimento do Nosso Redentor. O jejum também foi nos ajudando a entrar no mistério da Cruz. Cruz que adoramos e que beijamos, na reverência do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Na Celebração da Paixão, acompanhamos o Cristo ser preso, flagelado, julgado e condenado; padecer, entregar seu Espírito e ser sepultado. O silêncio permanece e nos toma, e segue sábado Santo adentro.
Como as mulheres que acompanharam Jesus, vamos ao sepulcro, nas primeiras horas do Domingo Santo. Na Vigília Pascal, as leituras das Sagradas Escrituras, os salmos, a renovação das promessas batismais, o Círio, a Eucaristia, tudo nos leva ao Cristo. Cantamos o Aleluia, pois o sepulcro está vazio! Cristo, nosso Doce e Amado, ressuscitou verdadeiramente!!! E, com Ele, a remissão e o resgate definitivos e contínuos de toda a raça humana, no hoje de nossas vidas e de nossa história. Ao escrever isso, lembro das palavras do Papa Francisco em seu primeiro Angelus (no dia 17.03.2013): "Não vos esqueçais disto: O Senhor nunca se cansa de perdoar! Somos nós que nos cansamos de pedir o perdão".
Após a Vigília Pascal, para festejar a Alegria da Ressurreição de Jesus - nossa vida e salvação -, as monjas ofereceram aos hóspedes e a toda a comunidade presente, um delicioso lanche: mais uma concretização da ternura e bondade de Deus, que nos ama infinitamente e nos redime, ou seja, mais uma manifestação do Cristo Ressuscitado!
Obrigada Jesus!!!
O Domingo da Ressurreição de Jesus, coroa a Grande Semana. Por isso, dizemos com o salmista: "Este é o dia que o Senhor fez para nós; alegremo-nos e nele exultemos. Aleluia".
Bom, meu retiro estava quase terminando. E, quando eu achava que já houvesse vivido tudo e recebido todas graças dos meus dias no Mosteiro, aconteceu a missa da segunda-feira na Oitava da Páscoa. Deus é bom! Participar da mistagogia da Celebração Eucarística (a Liturgia Eucarística) tão pertinho do Altar, onde o pão e o vinho são transubstanciados no Corpo e no Sangue do Cristo, foi um presente. Que surpresa gostosa e agradável. No Cristo: é onde tudo continua, sem ter fim.
Quanto amor de Deus por mim! A oração que me vem à mente e ao coração e com a qual termino esta partilha é a do filho pródigo: "Pai... já não mereço que me chamem teu filho. Trata-me como um dos teus empregados". (Lc 15, 18b-19). Mas o Senhor nunca desiste de nos tratar como príncipes, reis e sacerdotes, enfim como filhos muito amados e marcados pela Ressurreição!
Que Deus continue abençoando as monjas do Mosteiro do Encontro, mulheres que devotam sua vida ao Amado e aos filhos amados Dele, e que marcaram minha Páscoa 2013 e minha vida para sempre.

Karine Estácio Gonçalves
(De Belém do Pará)